ESTREIA-"Serra Pelada" reconta a saga do garimpo do sul do Pará


SÃO PAULO, 17 Out (Reuters) - O cenário de uma montanha rasgada por caminhos precários, repletos de homens enlameados e brilhantes, carregando sacos às costas, capturou a imaginação do mundo em 1980. Livros, reportagens, fotografias de Sebastião Salgado e imagens de filmes como "Powaqqatsi-A Vida em Transformação" (1988), de Godfrey Reggio, fizeram o resto.
Do alto de cifras espantosas, como a passagem de 100.000 garimpeiros, produzindo oficialmente 30 toneladas de ouro em 14 anos, a mina de Serra Pelada, no sul do Pará, virou mito e lenda.
O tema fascinou o diretor Heitor Dhalia ("O Cheiro do Ralo"), que gastou cinco anos na produção do drama "Serra Pelada", em que reconstitui parte da saga garimpeira amazônica pelo viés intimista, fechando o foco em dois homens, Joaquim (Júlio Andrade) e Juliano (Juliano Cazarré). Amigos de infância de temperamentos opostos, eles partem de São Paulo no início de 1980, com a ideia fixa de enriquecer no Pará.
Joaquim é professor e deixa para trás a mulher grávida de seu primeiro filho. É bom de contas e planejamento, qualidade que faz uma boa liga com a valentia de Juliano, que logo percebe que, no ambiente da gigantesca mina a céu aberto, a violência risca fácil e a vida de ninguém vale muito.
Escudados um na sabedoria específica do outro, Juliano e Joaquim prosperam. Tornam-se donos de um barranco, contratando empregados, achando ouro. O dinheiro começa a entrar, tornando o sonho de volta de Joaquim cada vez mais distante. Ele se angustia cada vez que chega mais uma foto da filha que ele não conhece.
Impossibilitados de obter autorização para filmar no local - onde hoje, em vez da montanha original, localiza-se uma lagoa e uma mina de produção de platina e paládio-, os produtores do filme garantiram o realismo do cenário reconstituindo o garimpo de 30 anos atrás no Estado de São Paulo. Nesse processo, comprova-se como foi (bem) gasto o orçamento estimado em 11 milhões de reais.
O roteiro, assinado por Dhalia e sua mulher, a premiada curta-metragista Vera Egito, sustenta bem a tensão da história, fazendo bom uso de um ano de pesquisa prévia, em que se estudaram as características únicas do ambiente.
Daí surgem personagens como as "marias", homossexuais que andavam por um garimpo onde se proibia a entrada de mulheres e que, não raro, eram tão ameaçadores quanto os demais habitantes.
Coprodutor do filme, Wagner Moura interpreta Lindo Rico, um dos senhores violentos do pedaço, uma mistura curiosa de matador frio e homem de fala mansa -que, ironicamente, proporciona à história alguns respiros cômicos.

A musa do elenco é Sophie Charlotte, estreando no cinema como Tereza, a prostituta que enlouquece Juliano e precipita seu conflito com o poderoso Carvalho (Matheus Nachtergaele), dono de vários barrancos. Uma disputa que não tem como ser resolvida a não ser à base de sangue.
Sem entrar muito no contexto político dos acontecimentos, como o final da ditadura militar -que foram bem analisados em documentários, como o recente "Serra Pelada - A Lenda da Montanha de Ouro", de Victor Lopes -, o drama de Heitor Dhalia preocupa-se em expor os dilemas humanos por trás da mina.
Como os sonhos delirantes de sucesso de trabalhadores e migrantes, a riqueza volátil de uns poucos, conquistada num dia, perdida no outro, a criação de um microcosmo extremo, tudo isso retratado com energia e realismo.



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